Toda instituição de ensino superior conhece o aluno que fez a matrícula, apareceu nas primeiras aulas, foi ficando quieto e não voltou no semestre seguinte. Quando a coordenação revisa o caso, encontra nota razoável e financeiro em dia. Nada explica, e ninguém consegue apontar em que momento ele decidiu sair.

A decisão se formou nas primeiras semanas. É nesse período que o estudante responde, sem verbalizar, uma pergunta simples: eu tenho com quem contar aqui?

Este guia trata do que fazer nessas quatro semanas, com responsáveis definidos. Não exige orçamento novo nem sistema novo. Exige que alguém tenha o acolhimento como atribuição em vez de expectativa.

Veja como a Faculdade Multiversa ganhou agilidade e autonomia com o JACAD:

Por que as primeiras quatro semanas são decisivas para a permanência no ensino superior

O período de maior risco é também o de menor atenção pedagógica. Enquanto o estudante está formando a impressão que vai sustentar a permanência dele, a instituição está resolvendo matrícula, alocação de turma, ajuste de horário e infraestrutura.

Essas tarefas têm prazo, dono e cobrança. O acolhimento normalmente não tem nenhum dos três, e é por isso que ele acontece por iniciativa individual de alguns professores e não como processo.

Há um agravante no ensino superior. O professor costuma ver a turma poucas horas por semana, às vezes em disciplinas curtas. Ele não tem continuidade para construir sozinho o vínculo que a instituição não estruturou. Tratar vínculo como perfil docente não é delegar, é deixar sem responsável.

Semana 1: acolher antes de começar a cobrar desempenho

O conceito de segurança psicológica, formulado por Amy Edmondson, define que ninguém em um grupo deveria ser punido por expor as próprias ideias. Nasceu no estudo de organizações e se aplica à sala de aula de forma quase literal. No ensino superior ainda mais, porque o adulto tem mais receio de parecer despreparado do que a criança.

O que fazer na primeira semana:

  • Promover ações de acolhimento e segurança já no primeiro dia de aula, e não em uma semana de recepção separada do início das aulas.
  • Começar com atividades pequenas, que permitam avaliar sem expor e que gerem confiança do estudante com o conteúdo.
  • Tratar os alunos com respeito e gentileza, ouvindo com interesse as respostas.
  • Demonstrar honestidade quando não souber algum assunto. Professor que admite não saber autoriza o aluno a não saber.
  • Interferir em qualquer situação que gere insegurança, vergonha, vulnerabilidade, exposição ou medo entre os estudantes.

Responsável: coordenação de curso, com orientação escrita aos docentes das disciplinas de primeiro período.

Semana 2: criar vínculos para fortalecer a permanência

Turma onde ninguém sabe o nome de ninguém no fim do primeiro mês é turma de risco alto, independentemente da média dela.

Vínculo entre colegas não surge por convivência. Surge por atividade desenhada para isso, com tempo previsto no plano de aula. Quando existe, os efeitos são consistentes: comunicação mais fluida entre os estudantes, mais interação espontânea fora do momento da atividade, e redução de hostilidade e comportamento desrespeitoso, porque conhecer a perspectiva do outro produz empatia que regra imposta não produz.

Uma dinâmica que cabe em vinte minutos:

Organize a sala com uma cadeira ao centro e os demais estudantes em círculo. Cada um tem até um minuto para responder uma pergunta e depois indica o próximo. As perguntas não são sobre conteúdo: como você imagina seu futuro daqui a cinco anos, o que você mais gosta de fazer quando não está estudando, quais são as cinco coisas ou pessoas mais importantes na sua vida.

Antes de começar, quatro acordos com a turma: compartilhar algo que faça a pessoa se sentir bem, respeitar quem estiver falando, praticar escuta empática e apoiar quem está apresentando. Sem esses acordos, a dinâmica vira exposição. Com eles, funciona.

Para envolver quem não está no centro, vale construir um mapa das conexões da turma em uma folha grande, ligando os estudantes por interesses que se aproximam. A turma sai com um registro visual de quem tem o que em comum com quem, e isso facilita a formação de grupos de trabalho depois.

Responsável: docente da disciplina de maior carga no primeiro período, com o tempo previsto no plano de ensino e não improvisado.

Semana 3: identificar os sinais antes que o aluno se afaste

Desempenho acadêmico e situação financeira são indicadores reais e são consequência. Quando a nota cai e o pagamento atrasa, a decisão já foi tomada.

Quatro indicadores falam durante, e nenhum exige ferramenta nova:

  • Padrão de presença nas primeiras semanas. O que importa é a mudança de padrão, não o número absoluto. Aluno que vinha e parou diz mais que aluno com frequência baixa desde o início.
  • Participação em atividade que não vale nota. É onde a adesão voluntária aparece, e adesão voluntária é a medida mais honesta de vínculo.
  • Resposta à comunicação institucional. Estudante que para de abrir e-mail e mensagem da coordenação está se desligando antes de sair.
  • Permanência em atividade extracurricular. Um dos poucos lugares onde pertencimento se manifesta de forma observável.

Responsável: coordenação de curso, com uma revisão semanal curta em vez de um relatório mensal longo.

Semana 4: agir antes que o afastamento vire evasão

Observar sem agir só transfere a frustração para outro momento. A quarta semana é a de contato.

Contato individual com quem apresentou mudança de padrão, feito por alguém que a pessoa reconheça. Não é convocação e não é cobrança de presença. É perguntar como está sendo o início do curso e ouvir a resposta inteira.

A maior parte do que aparece nessas conversas não é acadêmico: é conciliação com trabalho, deslocamento, dificuldade financeira que ainda não virou inadimplência, ou simplesmente não ter feito nenhum vínculo na turma. Cada um desses tem encaminhamento diferente, e nenhum deles se resolve com advertência por falta.

Responsável: coordenação de curso, com apoio do atendimento ao estudante quando houver.

Como saber se sua instituição está conseguindo reduzir a evasão

Três medidas simples, comparadas com o semestre anterior:

Proporção de estudantes que permanecem matriculados no semestre seguinte, considerando apenas ingressantes.

Proporção da turma que participa de pelo menos uma atividade não obrigatória.

Número de casos identificados e contatados antes de o desempenho ou o financeiro sinalizarem.

O terceiro é o mais importante e o menos medido. Ele diz se a instituição passou a agir durante ou continua reagindo depois.

Retenção não é permanência: entenda a diferença

Vale separar dois termos que costumam ser usados como sinônimo.

Retenção é o que a instituição faz quando já sabe que vai perder alguém. É reativa, acontece no fim do ciclo e o instrumento principal é desconto. Custa margem e não muda o ano seguinte.

Permanência é o que a instituição faz durante. É preventiva, acontece ao longo do ciclo e o instrumento principal é vínculo. Custa atenção e processo.

A maior parte das instituições tem orçamento para a primeira e ninguém responsável pela segunda.

Uma pergunta que cabe na próxima reunião de coordenação: quem, com nome, responde pela permanência dos ingressantes deste semestre? Se a resposta for que isso é de todos, é de ninguém.

A permanência começa antes da campanha de retenção

O segundo semestre acabou de começar. Os ingressantes de agosto estão exatamente na janela em que a decisão se forma, e ela não se reverte com campanha de retenção em dezembro.

Este conteúdo faz parte de uma série sobre quem fica, e por que a resposta raramente está onde a instituição está olhando.

As dinâmicas de sala de aula e a adaptação do conceito de segurança psicológica de Amy Edmondson para o contexto educacional estão em Layouts criativos para aulas inovadoras, de Ana Valéria Reis, Karina Tomelin e Thuinie Daros, editora B42.

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